sábado, 13 de janeiro de 2018

Onde estão as palavras?

 Pego-me revirando a esmo minhas fotos antigas pelas milhares de pastas de fotografias no meu computador bagunçado. Olhando imagens de outros dias, outros acasos, outras expressões, me parece que vivi épocas mais calorosas, acabo sentindo uma confusa nostalgia por momentos que tive há não muito tempo. Parece que o problema está no agora. No que estou sentindo, no que me tornei, não sei. Mas parece que já foi melhor... que já fui melhor.

 Releio meus textos e poemas antigos, observo minhas velhas pinturas... Tentando pescar pedaços de mim nas coisas que já fiz, tentando recuperar algo no meu ser que parece que se perdeu. Ou, pelo desprezo que sinto por mim agora, tento sentir orgulho do que já fui no passado. Questiono-me: como consegui escrever aquele poema? Aquele texto? Como consegui pintar aquela aquarela? É como se eu já não conseguisse mais... Um sentimento de que saber que eu já fui melhor do que isso, eu regredi, eu perdi. Como conseguia me expressar daquela maneira? Usar aqueles verbos de maneira poética e palavras rebuscadas de maneira coerente... Agora é como se eu só conseguisse me expressar por verborragias, esqueço muitas das palavras que já fizeram parte do meu, um dia, amplo vocabulário. Pego-me procurando sinônimos, antônimos, pesquisando sobre dúvidas de ortografia e gramática bobas que jamais tive antes. Às vezes esqueço o uso da crase, eu já gabaritei uma prova extensa sobre crase. Ando esquecendo como usar a vírgula, quando eu era mais nova, uma professora não acreditou que eu havia escrito certo texto pois estava "muito bem pontuado".

 Nunca serei a poeta que gostaria de ser. Nunca serei a pintora que gostaria de ser. Eu me autosaboto, eu ando para trás, eu perco minha essência em mim mesma, tentando recuperá-la na minha falha memória. Às vezes consigo, mas ela sempre volta fragmentada. Que angústia, que agonia! Há tanto dentro de mim que preciso botar para fora, preciso me expressar, preciso escrever para me sentir viva, para sentir que eu ainda existo, e resisto. Eu preciso escrever. Eu preciso pintar. Eu preciso sobreviver. Eu não sei o que fazer, não sei por onde começar, não sei como solucionar.

 Meus olhos estão pesados, meu corpo lasso e dormente, o sono, esse maldito, toma conta de meu corpo vulnerável. Eu, que fico facilmente entendiada, mas sempre sabia como defrontar o tédio, já não sei mais. As palavras não me vêm, elas não surgem, elas não fluem mais. Machuca. Ando bem machucada, como um cão ferido que sangra e vaga desconexo numa trama de ruas que se cruzam, sem saber em quais ele já passou, sem saber em quais ele deve passar.

 Quem me dera não depender sempre dos meus sentimentos atordoados para conseguir realizar minhas tarefas, sejam elas as mais simplórias. Estou sempre sob domínio dos meus sentimentos, preciso sentir para pintar, para escrever, para existir. Por isso meu medo colossal de não sentir nada. Eu só não sei como fugir desse vazio que se instala, sem permissão, nesse complexo sentimental da minha mente.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Calcantes Desgarrados

 Não tenho pés delicados,
 Meus pés e dedos são compridos para poder escalar melhor as árvores.
 Meus pés não são macios,
 Minha sola é espessa e escura.
 Meus pés têm calos e arranhões.
 Como os soldados de Esparta que marchavam descalços para endurecer seus calcantes.
 Meus pés estão sempre sujos,
 Mas minha alma fica limpa e leve.
 Corro descalça em superfícies macias para me sentir leve.
 Corro descalça em superfícies ásperas, em britas, em terrenos espinhosos,
 Para me sentir invencível, irrefreável.
 Minha mãe sempre me fala para colocar um calçado, desde criança.
 Eu coloco, meus pés logo querem se libertar deles,
 Para poder sentir e conhecer cada superfície em que eles percorrem.
 Pela liberdade dos descalços
 Pela sensação da primitividade do nosso corpo,
 De não termos medo das dores que nos fortalecem,
 Pela beleza das indelicadezas
 Dos instintos e robustezas.
 Percorro minha jornada a pé,
 E de pés descalços.

Fotografia de minha autoria.

A Fragilidade da Resistência

 Me sinto como uma Flor
 Que se curva ao Sol 
 Para florescer melhor...
 Uma flor Frágil que pode se despedaçar,
 Mas tu não podes me arrancar,
 No meu caule há Espinhos 
 e minhas Raízes são fervorosamente agarradas ao solo, 
 vinculadas pela necessidade de Subsistência,
 Movidas pela Paixão da Existência.
 Corte minha flor,
 Ela florescerá novamente para o Sol.
 Tire minhas Pétalas,
 Eu vou repô-las, uma por uma.
 Pode não me regar,
 A Chuva é quem rega minha Alma.
 Uma flor Selvagem que cresce em campo Pedregoso...
 Flor, Frágil flor...
 Arranca-me e eu broto de novo,
 O Vento carregará minhas Sementes
 Para crescer nos terrenos mais Desertos,
 Nos lugares mais Incertos
 Onde não poderás me encontrar.
 Esmaga-me, e eu me Reerguerei
 Tu ignoras que quem me sustenta é o Sol e a Chuva,
 E enquanto eles existirem, eu permanecerei aqui, Resistindo
 E não pode tirá-los de mim
 Pois enquanto arrancas minha flor
 Eu já produzo um Jardim.

Fotografia de minha autoria.